Suely Caldas Schubert
É muito difícil a uma pessoa que foi acostumado
a uma religião com rituais despojar-se de todas essas práticas ao ingressar nas
hastes espíritas. Também muitos, que desde o berço foram encaminhados para a
Doutrina Espírita, mas que trazem de outras vidas um passado religioso ligado a
ritos, dogmas e manifestações devocionais exteriores, têm dificuldade de
vivenciar a simplicidade e o despojamento que os ensinos espíritas apresentam,
pelo atavismo muito presente.
A maioria das pessoas sentem necessidade de
cultuar imagens, símbolos, mitos, atitudes, enfim, com as quais julgam
evidenciar e fortalecer a fé. Soma-se a isso o condicionamento imposto pela
sociedade, já que a maioria faz assim, age desse modo, diz que esse é o melhor
processo, numa tradição arraigada que se transmite de geração a geração.
Vindo para o Espiritismo, tais pessoas carregam
consigo todos esses hábitos, que se transformaram, à custa de constante
repetição, numa segunda natureza. Agem automaticamente e torna-se-lhe
dificílima a incorporação de novos hábitos totalmente opostos.É preciso tempo,
esclarecimento e força de vontade.
Muitas destas práticas devocionais ostensivas
são mais facilmente suprimidas. Outras, entretanto, mais subjetivas, permanecem
firmes, enquistadas na alma do crente, vindo a aflorar nos exatos momentos em
que surge o estímulo através de situações propícias.
Assim, não é raro encontrarmos aqueles que, nas
Casas Espíritas, ainda estão apegados à imagens; outros consideram
imprescindível aos médiuns o uso de roupas brancas: os que recomendam também os
banhos de sal grosso ou de pétalas de rosas brancas como preparação para os
trabalhos mediúnicos etc.
Ultimamente, outras novidades surgira: os
cristais, a cromoterapia, as pirâmides, os incensos etc. Muitos não se
libertaram do culto aos mortos, que se manifesta através da visitação periódoca
aos cemitério onde pensam encontrar junto ao túmulo aqueles que partiram, com
ênfase especial para o " dia dos finados".
Em relação à morte, o desapego dessas práticas
é bastante custoso.Uma semana após o funeral de um ente querido, os parentes
crêem ser imprescindível uma prece em plena reunião pública do Centro Espírita,
isto quando não solicitam um culto especial em homenagem ao falecido.Muitos
companheiros ficam até ressentidos com a instituição espírita que não adota
tais práticas, julgando ser indiferença, ingratidão ou pouco apreço ante a dor
que estão sentindo.
O mesmo ocorre com as datas festivas. Quando
nasce uma criança não conseguem entender por que não se faz uma prece no
Centro em benefício do Espírito que acaba de reencarnar. Se há casamento
alvitram a possibilidade de uma reunião na Casa Espírita para que se firme o
enlace espiritual.Julgam que os Mentores da Casa devem vir abençoar a criança
que nasce, o casal que se une, o Espirito que se foi. Concessões vão sendo feitas
para melhor atender a essas necessidades e agradar ao público.
Respeitamos profundamente os sentimentos que
ainda estão enraizadas na alma do povo. Mas, em Doutrina Espírita não se pode
contemporizar ou haver omissão com vistas às práticas exteriores. Através dos
seus ensinamentos entendemos que todas essas demonstrações religiosas são
absolutamente desnecessárias.
Manoel Philomeno de Miranda, em seu livro Nos
Bastidores d Obsessão, psicografado por Divaldo Franco, trata exatamente deste
assunto, no capítulo 16 ( Ed. FEB), registrando as explicações de José
Petitinga, o insigne espírita baiano, quando interrogado por um jovem espírita
nas vésperas do seu casamento, sobre se no Espiritismo não deveria haver uma
cerimônia qualquer para comemorar os grandes acontecimentos da vida. É oportuna
a sua resposta, da qual transcrevemos alguns trechos:
_O Espiritismo é a Doutrina
de Jesus, em espírito e verdade, sem fórmulas nem ritos , sem aparências nem
representantes, sem ministros.É a religião do amor e da verdade, na qual cada
um é responsável pelos próprios atos, respondendo por eles, conforme o
conhecimento que tenha da Imortalidade dos deveres. É a religião da filosofia,
a Filosofia da Ciência e a Ciência da religião, conforme predicou Vianna de Carvalho
em nossa Casa, com justas razões. Não se firma em enunciados estranhos à Boa
Nova e tudo quanto os Espíritos informaram ao Missionário Allan Kardec se
encontra fundamentados nos Evangelhoos.
_ E não poderíamos (perguntou o noivo, interessado
em ouvir a opinião de Petitinga sobre o assunto) formular uma oração de ação de
graças em momentos que tais?
_ Sim, orar,
podemos fazê-lo, porém na intimidade dos nossos corações, no silêncio do
quarto. Uma oração pública requer sempre alguém mais bem adestrado, de verbo
fácil e inspirado. Assim, iremos transferindo para outrem o que nos cabe fazer.
E como orar é banhar-se de luz e penetrar-se de paz, pela decorrente comunhão
com o Alto, devemos fazê-lo, nós mesmos, cada um, em particular. Que os
compromissos o façam, está tudo bem; que os nubentes o realizem, na intimidade
da alcova, é de necessidade: que os aniversariantes o produzam, no altar da
alma, é muito justo. Mas evitemos hoje que nossa emição e a nossa
festividade sejam transformados amanhã num culto exterior, que tenhamos
começado... Cada um de nós, aqui presente, deve estar em oração
silenciosa de bons pensamentos, em atitude de prece pela sobriedade dos atos,
mediante o respeito moral e fraternal que nos devemos todos uns aos outros...
O Espiritismo é a religião que religa, permiti-nos a
redundância, a criatura ao Criador, interiormente...Que tenhamos mais atitudes
do que palavras!..." O espiritismo leva o ser humano a uma profunda
vivência interior, o que para um grande número de pessoas é difícil de
alcançar. Precisam ainda de sinais exteriores, de práticas evidentes, de
demonstrações ostensivas.Entretanto, quando começamos a aprender a Doutrina e a
introjetá-la em nosso íntimo, vamos aos poucos nos despojamos de todas as
exterioridades.Quando a nossa fé se solidifica, por racional e lógica, temos a
certeza do amparo Divino, da presença dos Amigos Espirituais,da realidade da
vida futura, dos ensejos redentores que a reencarnação propicia, certezas que
nos plenificam de esperanças ante o porvir que se inicia no minuto que vem.
Lembremo-nos sempre que não há necessidade de quaisquer cerimônias para
que os Benfeitores Espirituais nos amparem, ajudem, socorram e amem.É preciso
apenas o nosso pensamento em prece e o nosso coração sintonizado no bem.
E
diante dos grandes acontecimentos de nossa existência, aprendamos que é no
recesso do lar, na intimidade de nosso coração e junto aos entes que amamos, no
altar nobre dos nossos sentimentos mais elevados, que devemos cultuar a Deus.
Se dúvidas ainda existirem, recordemos Allan Kardec, o missionário da Terceira
Revelação, que não necessitou de símbolos, cerimônias e rituais para receber de
Jesus, através dos Espíritos Superiores, o Consolador que Ele prometera à
Humanidade. Na austeridade e sobriedade de seu gabinete de trabalho ele se fez
apóstolo da Verdade, tendo como únicos paramentos a pena e o papel.
Texto publicado na Revista Reformador de
fevereiro de 2005, pág: 18 e 19.
Conteúdo estudado com os alunos da pré-mocidade do Centro Espírita Cristão Bezerra de Menezes (BH-MG) em Novembro e Dezembro de 2012, tendo como tema geral " O verdadeiro
Sentido do Natal".


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